quinta-feira, abril 12, 2007

Eis um texto que fiz como referencia para o meu amigo Gabriel (http://bumwitharmonica.blogspot.com/) a princípio era pra ser apenas alguns relatos; mas me empenhei e escrevi tudo! É uma história verdadeira. Saibam que escrever não é meu forte, mas lá vai...

Aquela noite eu dormi anestesiada de tanta dor. Apesar de não poder mexer-me, a noite foi curta, como a viajem que logo seguiu. Ao chegar lá, o ambiente não agradou, é um lugar que ninguém gosta, muito menos no estado que eu estava. As lembranças são vagas, trechos curtos. Lembro ter que deitar em uns bancos na entrada, com as costas sempre curvadas, como o feto no útero, para amenizar a dor. Eu ouvia conversas de papeladas, dinheiro, e de vez em quando, a minha mãe vinha me acalmar falando que ia dar tudo certo. Eu forçava um sorriso para tentar tranqüiliza-la e ela fazia o mesmo.

Logo chegaram dois seres, que no momento não me recordo o sexo, para me botar na maca. Olhavam pra mim, olhavam para a maca. Tentavam me levantar sem esticar as minhas costas. Não deu muito certo, mas na maca eu estava. Eu gritava naquela recepção que estava tão quieta. O que aconteceu nos próximos dias foi apagado da minha memória, deve ser pelas inúmeras vezes que tive que usar anestesia geral. A dor que eu sentia era inexplicável. Passava noites gemendo de dor. Lembro ter dividido o quarto com um menino com deficiência mental. Ele era muito miúdo, tinha cabelos escuros, movimentos involuntários e sempre um sorriso estampado no rosto. Dizia a mãe dele que feliz era o mês que ele não precisava ser internado. Eu me sentia mal de soltar uns gritos de vez em quando, eu não queria assustar o garoto, mesmo sabendo que ele não tinha muita noção do que se passava.

Depois de inúmeros exames e remédios, os médicos deduziram que o que eu tinha podia ser contagioso e eu precisava ser isolada por um tempo. Os remédios que eu tomava não ajudavam muito para a forte dor que não parava de me infernizar, e assim, a enfermeira tinha me dado a primeira dose de morfina. Na hora eu não sabia o que era. Ela me confortou contando desse remédio eficaz, que eu não sentiria mais dor. Eu cuidadosamente olhava ela injetar em uma entrada do cateter que vinha o soro. Seu dedo, vagarosamente, apertou a seringa, eu imediatamente sentia estar afundando na cama, o ambiente ficou tranqüilo, as paredes pareciam se mexer um pouco e depois de poucos minutos eu dormi. Mesmo recebendo doses generosas de morfina diariamente, eu estava impaciente. Não agüentava mais ser confinada em um quarto vazio como aqueles, vendo meus pais desesperados por não saber o que fazer. Eu batia com força na parede onde a minha cama estava encostada. Batia, chorava, gritava! Eu sabia que isso deixaria a situação pior, mas a minha esperança era que se eu batesse na parede com toda a minha força, ela ia cair, assim me libertando daquele inferno. Eu parava e sentia vergonha de mim mesma por criar teorias tão tolas.

Descobriram o que eu tinha algo tão simples; a catapora. Por causa de um remédio que eu estava tomando, a minha imunidade abaixou violentamente e o vírus da catapora contaminou meu corpo inteiro. Inflamou meus músculos, meus ossos, meu cérebro... Enfim, tudo! E por isso a minha dor estava aumentando a cada dia. Foi calculado pelo medico que não adiantava ter doses separadas no dia, tinha que ser direto. Isso queria dizer que eu teria que ir para a UTI. Eu fiquei até “contente” em saber que eu iria mudar de ambiente, porém não sabia que eu estava mudando para pior. O quarto da UTI era escuro, não havia janelas para fora, mas sim para o corredor. Dava pra ver outros quartos aonde havia outras crianças, porém eu só via uma; o menino da minha frente. Dava pra ver todos os detalhes do quarto, pois ele não tinha paredes no cubículo dele. Ele mora na UTI (se ainda estiver lá), ficou internado por mais tempo que qualquer outro paciente de lá; seis anos (na época). Era um menino, uma criança. Havia brinquedos pendurados no teto, bichos de pelúcia na cama. Ele assistia desenho o dia inteiro, era tudo muito colorido, porém triste. O menino era gordo como um bebê recém nascido. Tinha bochechas vermelhas e o cabelo bagunçado. Movimentava apenas os olhos. Quando ele queria chorar, o rosto inteiro ficava vermelho como as bochechas, e poucas lágrimas escorriam, porém não demonstrava emoção nenhuma com o resto do rosto, nem a sobrancelha. O pobre menino comia por um buraco na garganta e, dizia a minha mãe, que sobrevivia apenas por causa das maquinas. Os médicos falavam para os pais dele desligarem, mas não, eles não queriam. Todo dia era revisada a visita; um dia o pai, um dia a mãe e a avó também. Mesmo da distancia que eu estava, eu via os olhos dele brilhar quando chegava alguém, e como ele, eu também esperava. E mesmo quando eles chegavam eu me sentia mal, pois quem me visitava tinha que usar mascara. Eu me sentia um ser contagioso, doente. Os horários também me incomodavam, não era como o quarto que os pais podiam ficar lá sempre. Tinham horários de visita e era permitida uma pessoa por vez. Como eu dormia muito pouco, ou nada, eu ficava olhando para o soro pingando, como se fosse uma ampulheta que eu não poderia virar. Sem volta.

Mas antes de tudo isso, quando eu primeiro cheguei na UTI, estava recebendo mofina 24 horas por dia. Estava em coma induzido, lembro apenas de algumas alucinações que tive. A mais bizarra foi quando a minha mãe estava na porta conversando com uma enfermeira e, logo ao lado, dentro do meu cubículo, havia um homem negro, parecia o Stevie Wonder, mas de cabelo rastafari, usando uma bata colorida, meio jamaicana e falando em um antigo telefone vermelho. Eu chorava, “Ele está no telefone!”. Parece engraçado agora, até eu dou risada, mas na hora foi desesperador, tanto pra mim, como para a minha mãe. Eu falava para ela como eu adorava ficar lá, eu só calculo a dor de uma mãe vendo a filha chapada e ouvir dela mesma que não quer sair da UTI. As únicas outras coisas que eu me recordo de ter visto é meu cachorro de pelúcia usando um tutu de bailarina e um brigadeiro gigante. Fazia semanas que eu não colocava comida na boca, era alimentada apenas por soro e um cano que enfiavam no meu nariz e ia até o estomago. “Quando estiver descendo, engula!”, dizia a enfermeira cada vez que enfiava aquela coisa desconfortável no meu nariz, goela abaixo. E ali eu era alimentada com um leite suplementar, algo assim, que me fazia vomitar toda vez que me davam.

A única coisa consciente que eu lembro de quando eu estava na morfina, foi a minha pior noite internada. Tinham ligado para o meu pai, que estava em Rio Negro, pra voltar pra Curitiba, pois os médicos diziam que eu não passava daquela noite. Eu acordei respirando extremamente rápido, como se estivesse no meio de um orgasmo, mas claramente não foi nada prazeroso. Usando nada mais que aquela vergonhosa frauda que todos os pacientes na UTI têm que usar, eu sentia meu corpo queimar de dentro pra fora. Havia sacos de gelo nas minhas pernas, no meu pescoço e braços que não refrescaram bosta nenhuma. Aquele barulhinho da máquina que mede os batimentos do coração (desculpa, não sei termos médicos), parecia estar fora do controle. Olhei para o lado e tinha uma enfermeira que estava regulando algo que não me recordo o que era. Lembro apenas que, mesmo não tendo ar, eu falava inúmeras vezes, “Eu vou morrer, eu vou morrer, eu vou morrer...”. O que era exatamente o que estava acontecendo, eu estava morrendo e eu sentia isso! A enfermeira, tentando manter a calma, olhou para mim e perguntou, “Você vai morrer?”, e eu nervosa como nunca respondi, “Vou!”. Ela olhou para a porta e falou, “Ah bom... Leve ela!”. “Não!”, eu gritei, realmente acreditando que ela falava sério. “Então mantenha a calma que eu vou te ajudar”. Depois disso eu acho que desmaiei, ou algo do gênero. Eu tinha tido uma overdose, não sei se foi neste exato momento, mas tinha acontecido.

Depois disto, eu tive um “falso final feliz”. Eu tinha voltado pro quarto, tinha me recuperado. Já estava de pé, andando um pouco, sentando. A felicidade de eu poder sentar era inexplicável. Eu tinha feridas nas costas e na cabeça de ficar deitada. A sola do meu pé já não estava acostumada e receber o peso do meu corpo, a sensação de pisar no chão era bizarra, ruim demais. Parecia que o meu osso ia perfurar a pele dos meus pés. Artisticamente, eu estava uma bosta. As poucas vezes em que eu peguei num lápis de cor, eu pintava aqueles desenhos prontos do 101 Dálmatas, e borrava tudo. Quando eu ia escrever para a minha prima que eu estava bem e com saudade dela, a letra parecia de uma criança de jardim de infância, sem exagero. As minhas mãos estavam fracas de tanto levarem picadas, de tanto estourar veias e ficar roxo. Mas mesmo assim eu não ligava, estava feliz por estar melhorando, meus parentes iam me visitar naquele dia, estava tudo indo muito bem! Mas era só eles chegarem que eu comecei a sentir dor. Não era aquela dor de antes, era uma dor na região da barriga, sei lá. Era forte e eu tentava disfarçar, pois não queria preocupar a minha avó e meus tios. Eles foram embora no fim do dia com um olhar de preocupação, pois eu não consegui esconder a dor. Eu fiz uma série de exames. Perfuração intestinal! Que delícia.

Um certo fulano, médico ou enfermeiro, não sei, falou que eu teria que fazer uma cirurgia de emergência. Era de madrugada e ele me perguntava se eu queria fazer agora ou esperar até amanhecer. Porra, pergunta isso pro paciente?! Eu não calculava como isso era sério, estava meio abalada pois eu esperava recebem alta. Respondia a ele, “não sei, tanto faz...”.

Acabei fazendo a cirurgia aquela noite mesmo. Meus pais desesperados na sala de espera ouviam alguns barulhos, como da limpeza intestinal. Um barulho extremamente nojento de sucção. Ao acordar, lá eu estava novamente, em outra UTI! Meio dopada, eu não me recordo ao certo a ordem do que aconteceu tudo... O quarto era diferente esta vez, eu tinha uma janela ao lado direito. Não dava pra ver nada, só umas pessoas que passavam rapidamente, mas lá de vez em quando. Teve uma vez em que a enfermeira parou bem na frente da pequena janela e começou a comer bolacha recheada. Puta que o pariu. Nem preciso dizer nada...

Assim como a outra UTI, a única visão que eu tinha, era do paciente que estava na minha frente. Era uma moça, quase mulher. Linda, linda, linda. Devia ter uns 16, 17 anos (eu com mais ou menos 12 na época, não me recordo). Careca. Alta, não cabia na cama. Repito, linda. Leucemia galopante. Não sei quanto tempo ela ficou lá, mas só sei que quando ela se foi, colocaram uma placa na frente da minha porta. Eu pedia pra tirar, mas as enfermeiras falavam que eu não devia ficar vendo a pobre menina sofrer. Hoje em dia eu acredito que eles não queriam que eu soubesse que ela se foi, se não eu ia pensar que eu seria a próxima.

Desta vez não tive alucinações, apenas acordava com um cano gigantesco na minha boca, que ia até o meu pulmão. Meio grogue, eu tentava arranca-lo, mas meus pulsos eram imediatamente amarrados na cama e dá-lhe morfina! Houve uma serie de complicações, como pontos inflamados. “Calma, dói cortar o cabelo? Então, tirar ponto é como cortar o cabelo”. É, teu cu que é! Acho que tiraram mais de 15 pontos, cada um abria mais o buraco da minha barriga.

Depois de um tempo, voltei ao quarto, nesta vez do SUS, com mais duas meninas que depois de um tempo tiveram alta e eu fiquei sozinha. Com um cateter no pescoço e convulsões na perna (por falta de morfina) passou mais alguns dias. Finalmente, tive alta. Usando uma colostomia que eu só iria tirar depois de três meses.

Aquele dia fazia sol, mas ameaçava chuva. Ofereceram-me uma cadeira de rodas para eu ir até o carro. Não, eu sei andar, obrigada. Levantei da cama, com aquele desconforto na sola do pé, deixando o quarto frio, sem olhar para traz. Sai com um aperto, não era uma felicidade, era um pedaço de mim que o Pequeno Príncipe roubou, a rosa que estava dentro de mim, ele levou. Nos paços minúsculos que eu levava, de pijama, de pantufa, passei pelas enfermeiras sendo aplaudida e assim, saí de lá, sem a minha preciosa rosa.

3 comentários:

disse...

peço críticas ! :)

Marco Aurélio disse...

Eu já fiz as minhas né ahueihaeui :}
Não deve ter sido nada agradável ><
dói só de ler...
bjão

Vênus de Willendorf disse...

bem querida...eu acho que você evoluiu bastante,tem uma notável diferença desde a ultima vez que li um texto seu.
Só cuidar mais com o português.
Robô=seria do verbo roubar.O correto é roubou.Nada demais , só estou falando.
Mas está muto bom.
E eu que acompanhei isso tudo,me supreendo com essa nova visão.Aí me surgem lembranças na cabeça...doloridas...e as lágrimas escorrem.